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Homilia na Solenidade de São Vicente

23.02.17 | 18:57. Archivado en Cardenal Clemente

Para que o grão dê muito fruto

«Se o grão de trigo cair na terra e não morrer, fica só ele; mas, se morrer, dá muito fruto»: Assim acabamos de ouvir, no Evangelho da solenidade de São Vicente, diácono e mártir, padroeiro principal do Patriarcado de Lisboa. E tudo quanto herdamos do nosso passado cristão, propriamente dito; tudo quanto celebramos em Cristo e no seu mártir, nosso padroeiro; tudo quando havemos de projetar para o futuro em termos de Evangelho e missão, na cidade, na diocese e além dela – tudo, legitimamente tudo, se pode e deve entender à luz daquela palavra de Cristo, que aliás compendia a sua vida feita Páscoa e o seu Espírito feito dom e impulso.

Vicente foi um grão caído na terra pela mão de cruéis algozes. Ainda mais, pois assim mesmo se ofereceu, por si, pelos perseguidores, por todos, no Espírito de Cristo. Deu depois muito fruto, servindo de exemplo para próximos e distantes, na rápida expansão do seu grande testemunho. Séculos depois, trouxeram-lhe as relíquias para a ponta ocidental do Algarve. Com D. Afonso Henriques vieram para Lisboa, como ainda perduram.

A cidade guardou-lhe a lembrança no brasão que ostenta, a nau sobretudo. Lisboa pode ver aqui duas alusões pelo menos. À sua alma marinheira, pois sempre acolheu o que veio de fora e sempre daqui partiu para o vasto mundo. Embarcar e desembarcar é destino lisboeta, como partir, mesmo ficando, e acolher sempre mais e melhor. E à sua interculturalidade de raiz, pois foi muito tempo e quer ser agora o que a chegada das relíquias de São Vicente, naquela nau e com aqueles corvos, significou na altura. Pois se refazia a cidade com a gente que sobrava ou chegava, mouros e moçárabes, francos e germanos, agricultores das redondezas. São Vicente significou na Lisboa nascente, pelo modo como veio e pelo Evangelho que relembrou, o melhor da alma da cidade, de então para agora.

Pelo ministério que exerceu, São Vicente, é especial referência para os diáconos de Lisboa e a missão que igualmente exercem, ativando de modo sacramental o serviço de Cristo nas comunidades que integram. Também por isso renovarão hoje o seu compromisso, de que a diocese e a sociedade esperam tanto. A disponibilidade para o serviço, a atenção aos pobres, a simplicidade atenta e inclusiva – isso vos significará, caríssimos diáconos, a estola de través, como a usaria São Vicente, para maior desembaraço e prontidão.

Há precisamente três anos, nesta mesma solenidade e local, anunciámos a caminhada sinodal de Lisboa, abrindo um largo período de oração e partilha para concretizarmos entre nós o “sonho missionário de chegar a todos”, como o Papa Francisco nos indicara meses antes, na exortação apostólica Evangelii Gaudium. Assim aconteceu, graças a Deus e certamente com o apoio de São Vicente, nosso padroeiro principal.

Cinco trimestres levaram milhares de cristãos da diocese na reflexão de outros tantos capítulos da exortação apostólica. “Caíram realmente na terra”, como aquele grão de trigo, pois tiveram bem presentes as atuais circunstâncias da sociedade e da Igreja, em que o “grão” evangélico há de germinar. Com o que concluíram e adiantaram, escreveu-se um preenchido documento onde quase tudo perpassa, de observação, discernimento e pistas para o futuro. Documento que foi depois trabalhado pelo Sínodo Diocesano, vai para dois meses, e que substancialmente se publicou na Constituição Sinodal de Lisboa, assinada a 8 de dezembro, sob a proteção e garantia da Imaculada Conceição.

Estamos agora na terceira e decisiva fase da caminhada sinodal que prosseguimos, ou seja, a da receção ativa da Constituição Sinodal, em cada um dos seus setenta números e especialmente das sete “opções” com que se conclui para recomeçar. Chamamos-lhe “opções”, no sentido em que queremos coincidir com as opções do próprio Deus, retomando o lema que o Padre Cruz tanto repetia (citando Santo Afonso): «Quem quer o que Deus quer, tem tudo quanto quer».Enumeram-se assim, cabe lembrar: Santidade, missão, comunidade, iniciação cristã, família, vocação e sinodalidade. E devemos considerá-las dinamicamente, ainda que, na programação, as possamos tomar em detalhe, sem perder o conjunto em que unicamente crescem.

A santidade lembra-nos que tudo o que fizermos só ganha sentido se nos fizer a nós próprios mais de Deus e para Deus, princípio e fim da evangelização. A missão decorre imediatamente da santidade, porque o nosso Deus é constante saída de si, como Pai em relação ao Filho, como Filho em retribuição ao Pai, como Espírito de mútua entrega. A comunidade, pois nada disto é teórico, mas eminentemente prático, vivendo com os outros e para os outros, e assim mesmo escola de vida divina. A iniciação, como revelação que se acolhe e vida nova que começa, numa comunidade que progride. A família, pois tudo há de começar onde naturalmente começamos e aí mesmo encontra a primeira linguagem, o primeiro rosto, a relação fundamental. A vocação, pois o apelo que Deus faz a todos, para sermos realmente seus, incide em cada um para que seja especialmente assim, como Ele quer e espera, como os outros precisam que aconteça. A sinodalidade, porque se trata de caminho a percorrer com todos, rumo ao Deus uno e trino, em unidade plural e partilhada. Como o grão de trigo que «não fica só» e por isso mesmo é que «dá muito fruto».

Concretizar estas opções, como itens dum mesmo caminho de comunidade e missão, rumo à santidade autêntica, é o que temos por diante. Sei que em várias instâncias eclesiais (paróquias, vigararias, institutos, capelanias, movimentos…) se começou já a trabalhar na aplicação concreta deste ou daquele número da Constituição Sinodal, especialmente da sua terceira parte: dimensão profética, para anunciar e testemunhar o Evangelho; dimensão sacerdotal, para celebrar a fé e cultivar a vida espiritual; dimensão real, para servir e cuidar do próximo; edificação comunitária e vivência da comunhão para o serviço do mundo. Em relação a cada um dos pontos há muito que ler e reler na Constituição Sinodal, pessoalmente e em grupo; muito para concretizar praticamente em cada comunidade e além dela.Da reflexão entretanto feita, no Conselho Episcopal e não só, adianto-vos dois pontos programáticos. Um quanto à ativação de tudo isto; outro quanto a metas temporais.

Sem entrar em detalhes que não são para agora, divisa-se o seguinte: Até ao próximo Verão, apuraremos nas diversas instâncias eclesiais da diocese o modo de concretizar cada uma das sete opções enunciadas, atendendo à totalidade das indicações da Constituição Sinodal.

Contando necessariamente com a contribuição da cúria pastoral, bem como dos vários orgãos diocesanos de reflexão e consulta e de outras realidades eclesiais, o núcleo mais ativo da receção sinodal deverá estar na conjugação sistemática da reunião de vigários com as reuniões de vigararia. Na verdade, mostra a experiência que nesta conjugação reside o que temos de mais concreto e prático para levar por diante a ação pastoral no âmbito diocesano. E isto mesmo prevê o Código de Direito Canónico, quando comete ao vigário forâneo, além do mais, «promover e coordenar a atividade pastoral comum na vigararia» (cân. 555, § 1). Assim conseguiremos delinear um programa de receção que nos preencherá ativamente um triénio pastoral, a partir de setembro próximo.

Concluído o triénio, poderemos, ainda em 2020, reunir uma assembleia diocesana para avaliar o percurso feito, reconhecendo e agradecendo a obra do Espirito que assim mesmo nos conduz. Outro modo de dizer o fruto acontecido do grão que germinou. Porque o tempo assinala a presença de Cristo, do mundo para a Igreja como apelo e da Igreja para o mundo como resposta.

Dêmo-la hoje como há tantos séculos a deu São Vicente, com a mesma inteireza de fé e testemunho. Como naquela nau aportou a Lisboa, como em Lisboa a transporta a Igreja.

Sé de Lisboa, Solenidade de São Vicente, 22 de janeiro de 2017

+ Manuel, Cardeal-Patriarca


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