Acaba de ser publicada uma nota pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa sobre a problemática da eutanásia. ‘Cuidar da vida até à morte’ é o título do texto que pretende contribuir para uma “reflexão ética sobre o morrer”.Dada a grande dificuldade em integrar a morte e o sofrimento no horizonte da vida, sentida em todos os tempos, podemos ficar seduzidos pelas possibilidades abertas pela medicina actual e perder a capacidade para uma lúcida avaliação ética. A proposta de algumas orientações, destinadas aos católicos, servirá para o debate sério de qualquer pessoa que se deixe questionar e não entre num discurso facilitador de atitudes com graves consequências.
O modo de morrer tem muito a ver com o que é importante para cada um em ordem a uma vida verdadeiramente humana. Das convicções de um olhar crente resulta que a vida não é valor absoluto e que ninguém é senhor absoluto da própria vida. A aceitação realista dos limites naturais da existência humana é vivida serenamente com o horizonte da eternidade.
Defendem os Bispos que ter a intenção de provocar a morte por acções ou omissões ou ajudar o suicídio, decidindo a hora da morte, é para um cristão eticamente inaceitável.
Sob a capa da compaixão para com quem sofre, com o pretexto de cumprir um gesto de humanidade, a sociedade não procura meios para viver dignamente esta fase da vida que constitui a proximidade da morte. Ora a “eutanásia ou a ajuda ao suicídio são formas desumanas de lidar com a pessoa que vive o seu processo de morrer”.
Há contudo legitimidade para a distanásia, ou seja, renunciar a recorrer a um conjunto de intervenções médicas “desproporcionadas face ao bem global que a pessoa poderá vir a experimentar”. Respeitar o curso normal da vida do qual faz parte a morte não é matar, como na eutanásia, mas deixar morrer, sem com isto negligenciar os cuidados básicos da alimentação ou hidratação. De facto, “proteger a vida não significa prolongá-la a todo o custo”. Como não é lícito intervir para antecipar directamente a morte, também não é obrigatório moralmente prolongar a vida.
É muito saudável ler textos como o desta nota, que recomendo vivamente, porque nos garantem que “uma vida humana nunca perde sentido nem dignidade”. Ora a legitimação jurídica da eutanásia é um passo para se considerar que há pessoas não desejadas porque gravemente doentes ou em estado terminal. A maneira de morrer pode indicar o sentido da vida toda.
D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa
Viernes, 17 de febrero
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