Não basta criar instituições para garantir de modo automático o direito ao desenvolvimento. O que revela que temos bom índice de desenvolvimento? Serão as posses económicas e a boa habitação? Será a segurança do futuro? Será a qualidade da saúde? Será o nível da formação cultural? Será a harmonia com a natureza? Será lícito um "superdesenvolvimento dissipador e consumista que contrasta, de modo inadmissível, com perduráveis situações de miséria desumanizadora"? Entre as muitas perspectivas com que podemos encarar o desenvolvimento, a encíclica Caritas in veritate propõe uma concepção cuja amplitude policêntrica suscita a nossa atenção.
A complexidade e a gravidade da actual situação exigem "novos esforços de enquadramento global e uma nova síntese humanista." Só assim se examinará a "espessura humana" dos problemas. Importa acolher como alicerce esta afirmação: "O autêntico desenvolvimento humano diz respeito unitariamente à totalidade da pessoa em todas as suas dimensões." Se a dimensão transcendente da história e da pessoa estiver ausente, o desenvolvimento pode reduzir-se ao ter, cair na presunção e acabar por abrir um processo de desumanização.
Ao reconhecer na outra pessoa a imagem divina, o cristianismo apela à descoberta do "outro e a maturar um amor que se torna cuidado do outro e pelo outro". Não basta criar instituições para garantir de modo automático o direito ao desenvolvimento. Não são as estruturas que garantem o desenvolvimento humano integral, mas muito mais a liberdade responsável das pessoas e dos povos. De facto, ao entender o desenvolvimento integral como vocação requere-se "uma livre e solidária assunção de responsabilidade por parte de todos". Esta visão confiante no ser humano, chamado a "ser mais", recorta-se claramente dos perigos, seja de absolutizar o progresso de desenvolvimento tecnológico, seja de negar a utilidade do desenvolvimento "considerado radicalmente anti-humano e portador somente de degradação".
Bento XVI defende a vantagem das descobertas científicas, que, "se bem usadas, constituem uma oportunidade de crescimento para todos". A pessoa humana não é sujeito a ser mero meio para o desenvolvimento. É chamada a uma responsabilidade de pessoa livre e autónoma. Assumir um futuro novo obriga a projectar um caminho que integre as seguintes atitudes: "Impor-nos regras novas e encontrar novas formas de empenhamento, apostar em experiências positivas e rejeitar as negativas. Assim, a crise torna-se ocasião de discernimento e elaboração de nova planificação. Com esta chave, feita mais de confiança que de resignação, convém enfrentar as dificuldades da hora actual." É momento para deixar crescer a interrogação sobre o modelo de desenvolvimento que move cada um de nós e nos dinamiza como povo.
D. Carlos Azevedo, Bispo auxiliar de Lisboa
Sábado, 18 de febrero
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