Reabilitar património é caminho que surge como respeito pela memória, mas também como atenção ao futuro, na oportunidade aberta pelo desenvolvimento do turismo e na criação de emprego com resultados medidos e equilibrados. É extraordinário o exemplo dado pela Câmara Municipal de Almada ao enfrentar uma situação urbana degradada, à volta da antiga capela de São Sebastião, até a transformar num lugar devolvido a quem pode dar-lhe vida.
Dia 25, às 17h00, é inaugurada a antiga e nova Ermida de S. Sebastião. Por vezes, restauram-se espaços sem ter uma estratégia clara para a sua utilização e depois anda-se às apalpadelas até se voltar a degradar o espaço for falta de quem o assuma. Muitas vezes o restauro altera a finalidade da construção e adapta-a a finalidades mais rentáveis. Aqui a opção foi devolver o lugar à sua funcionalidade primitiva e entregá-lo à comunidade que lhe deu origem.
O cuidado colocado na adaptação da igreja às necessidades actuais do culto e o recurso a soluções da gramática contemporânea merece todo o apreço porque resulta bem conseguido e integrado. A Arquitecta autora do projecto, Maria José Lopes, mostra ter percebido que os lugares não são para reconstituir como mera arqueologia de repetição, sobretudo quando já se destruiu a traça primitiva em alguns elementos. A integração de alterações sem rupturas estéticas enriquece a funcionalidade litúrgica.
A amplitude da intervenção camarária avança até à criação de algumas alfaias litúrgicas de qualidade que possam servir nas celebrações e condizer com o teor do espaço, como deve acontecer. O ideal é sempre que todos os objectos e vestes a usar nas celebrações entrem em diálogo com o espaço celebrativo, seja nos símbolos preferidos seja na forma e dimensão. A entrega da criação das peças ao conhecido escultor José Aurélio completa e garante essa visão integrada, bem como indica o caminho do rigor estético à comunidade, que vai aqui celebrar a sua fé.
A ameaça das pestes fez erguer à entrada de quase todas as vilas de Portugal uma ermida de S. Sebastião. O crescimento urbano veio a envolver esses lugares e até a destrui-los muitas vezes. Os doentes viam no corpo do santo o símbolo do seu próprio corpo. Além das inúmeras capelas, em Portugal existem 100 paróquias que têm como padroeiro o Mártir. A presença destas memórias criadas pela busca de confiança em Deus, em horas horríveis de sofrimento e dor, podem servir de marco cultural a respeitar e perseverar. Está de parabéns Maria Emília Neto de Sousa e a sua cidade de Almada.
D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa
Sábado, 18 de febrero
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