Religión Digital

En Memoria del profesor José María Mardones

29.06.08 | 19:05. Archivado en Lectores cuentan

Cumprem-se hoje dois anos que faleceu, repentinamente, quando via o jogo de futebol Espanha contra Arábia Saudita, o Prof. José Maria Mardones. Tinha 63 anos e faleceu vítima de um ataque de coração. Doutorado em Sociologia e Teologia, ex-professor de Deusto e da Universidade do País Vasco, o Prof. Mardones integrava, nos últimos anos de sua vida, o Instituto de Filosofia do Conselho Superior de Investigações Científicas de Madrid, mais propriamente, era membro, como “Investigador Científico”, do Instituto de Filosofia da Religião.

A sua notabilidade não se circunscreveu às fronteiras da nação que o viu a nascer, tão pouco se restringiu à Península Ibérica, mas adentrou-se além fronteiras, expandindo-se como um dos mais insignes investigadores do fenómeno religioso na modernidade.

Esta reputação, que se impôs não só no meio académico como no público em
geral, foi alcançada essencialmente pela forma simples, clara e directa com que o Prof. Mardones, num discurso bem estruturado e de leitura inteligível, desmontava e simplificava conceitos tão profundos e de trato difícil, como os que envolvem o fenómeno religioso, a sociedade, a cultura ou a política, quer pela sua amplitude de fenómenos que se entrecruzam e que não se podem compreender um sem o outro, quer pela sua complexidade, posto que a mentalidade se altera quando se alteram as
estruturas e os sistemas culturais, económicos ou políticos.

Esta aptidão que lhe era nobremente reconhecida de simplificar temas complexos fez com que o Prof. Mardones se envolvesse com assuntos teóricos como os que deram mote a um dos seus primeiros livros: Dialéctica y Sociedad tradicional. La teoría Crítica de la Sociedad de M. Horkheimer (1979), assunto repescado e tratado 20 anos mais tarde, em El discurso religioso de la modernidad. Habermas y la Religión. Ambos, pelo certo, formarão um precioso contributo a quem quiser adentrar-se e compreender o debate, movido há 4 anos atrás entre Habermas e o Cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI.

Outros escreveu que se enquadram nesta mesma linha teórica, entre eles
destacamos: Razón comunicativa y Teoría Crítica (1985), em que o autor expõe a teoria crítica de Habermas e a forma como este constrói e propõe a sua racionalidade comunicativa, respondendo à questão de qual é a teoria da religião que possibilita a Habermas formular as questões da racionalidade, da sociedade e da modernidade.

Todavia, reconhecemos que o José Maria Mardones não se ficou exclusivamente pela investigação de assuntos teóricos. Bem pelo contrário, a maior parte da sua investigação revela interesse pelos problemas nas suas manifestações concretas, no que tinham de atractivo ou de inquietação, na medida em que produziam sentido ou alienação
para o homem contemporâneo.

A fazer jus a este estilo destacam-se, entre as muitas publicações, os livros em que se encontra bem perceptível a preocupação do autor por encontrar o papel da religião cristã na modernidade, debatendo, de forma crítica, o modo como os católicos assumiam os novos desafios e compromissos públicos num tempo de desencanto. Veja-se Postmodernidad y cristianismo (1988); Postmodernidad y neoconservadurismo (1991) e,
dado ao prelo no mesmo ano, Capitalismo y Religión. La religión política
Neoconservadora.

Neste último, o consagrado autor entre os sociólogos da religião, parte e Weber para atribuir ao espírito do capitalismo a tríade sistémica da economia de mercado, a ética puritana e a ordem democrática parlamentar, apontando, como já o havia feito P. Berger, que a democracia não é condição sino qua non para o capitalismo,
contudo, como expressava o autor, não há democracia em países não capitalistas.ഊEn 1994, Mardones publica Las nuevas formas de la religión. La reconfiguración ostcristiana de la religión e, nos anos subsequentes, Análisis de la sociedad y fe cristiana e A dónde va la religión? Cristianismo y religiosidad en nuestro tiempo. Nestas três obras o autor expressa que a racionalidade moderna, embora se apresente com tons formalistas, é de carácter funcional com ênfase no pragmático, privilegiando o económico, dirão os críticos sociais frankfurtianos.

Neste percurso moderno, em que se passa de uma razão rigorosa e unitária a uma débil e fragmentada, surge uma visão diferenciada da sociedade,
da realidade. Chegamos a um mundo mais descentrado, mais pragmático, mais relativo, se quiséssemos. Esta reconfiguração da razão modifica não só as estruturas sócio-culturais como também a dimensão sócio-religiosa. Facto é que a religião não sucumbiu, como previam alguns, mas, não é menos verdade, que sofre uma perda de relevância social e surge claramente reconfigurada, eclipsando-se, em parte, da esfera pública.

Mardones prolonga este seu raciocínio no Neoliberalismo y Religión (1998) e no Síntomas de un retorno. La religión en el pensamiento actual (1999), em que sentencia que, na contemporaneidade, o sentido e o sagrado são procurados à maneira de consumos “a la carte”, donde cada qual é autónomo de acreditar e livre de eleger em que acreditar,
em função da satisfação e felicidade pessoal. Mardones caracteriza, assim, a religiosidade moderna pela vivência autónoma, individualizada, em que cada um pode eleger, sem condicionalismos aparentes, o seu próprio itinerário no sagrado, que pode passar ou não, por uma organização religiosa convencional.

Este debate recentraliza a questão do que se entende por religioso, posto que a modernidade tardia desestruturou todo o universo simbólico. Está aberto o caminho para novas questões: que tipo de religiosidade é produzida pelas tecnologias, pela sociedade de consumo ou pelas estéticas posmodernas? A que ética levam? Que tipo de solidariedade
produzem? Que tipo de religiosidade ou espiritualidade se está a produzir com o “afastamento” da religião da esfera pública? Finalmente, o que é que a sociedade posmoderna está a sacralizar? Estas e outras questões procuram resposta em La vida del símbolo. La dimensión simbólica de la religión (2003), traduzido para português en 2006
pela Editora Paulinas.

No livro La indiferencia religiosa en España ¿Qué futuro tiene el Cristianismo? (2004), o autor, partindo do caso concreto de Espanha e atento ao crescente número de indivíduos que se declaram indiferentes ou não religiosos, procura desvelar que significado tem a indiferença religiosa e que atitudes ou orientações procura o cristianismo para fazer
frente a esta realidade. O cristianismo do futuro será de fermento? Levedura em meio da massa indiferente? Será um cristianismo encarnado, propondo uma experiência religiosa situada, viável aos homens e mulheres do tempo presente, que esperam aqui e agora a libertação e o início do Reino de Deus? Em 2005, na obra La transformación de la religión. Cambio en lo sagrado y cristianismo,José Maria Mardones regressa às questões esgrimidas em publicações anteriores, dando maior relevância, de uma forma crítica, à busca de sentido fora de qualquer tipo de institucionalidade.

Trata-se, segundo o autor, de uma forma de viver o seu próprio sentido,
sem compromissos, buscando o que se crê, em que se crê e quando se crê, sem fronteiras, limites ou atributos. Esta forma de espiritualidade está a forjar novas estruturas de sentido, que produzem, consequentemente, uma nova forma de sociabilidade humana, baseada na crescente emancipação da ordem social.

Um ou dois dias antes da sua partida, deixou-nos o livro Matar a nuestros dioses. Un Dios para un creyente adulto, onde o autor discorre sobre as imagens de Deus. Mardones não concebia nem suportava a ideia de um Deus terrível: “não há coisa mais nefasta que uma má imagem de Deus”.ഊA José Maria Mardones é-lhe reconhecido além da sua capacidade científica e académica, que se manifesta não só na qualidade mas, claro está, nos inúmeros livros e artigos científicos que nos legou, um homem de profunda espiritualidade, que sabia acolher, transmitir e apoiar sempre com grande proximidade, com sentido de humor, mostrando interesse pelo caminho de cada um, tornando-nos, assim, pela atenção que nos
dispensava, especiais na sua vida.

Ao Prof. Mardones, orientador da minha investigação e amigo com quem partilhei muitas refeições, estendo o meu apreço e agradeço-lhe pelo tempo que me dedicou e pelo tanto que me ensinou.

Eduardo Duque (Doutor em Sociologia pela Universidade Complutense de Madrid)
ejduque@gmail.com

2 comentarios

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Comentarios
  • Comentario por J. Ignacio Calleja Sáenz de Navarrete [Blogger] 01.07.08 | 16:44

    Lo recuerdo con admiración y afecto. Y me viene a la memoria la última vez en que nos encontramos. Fue en Vitoria, en una conferencia, y me dijo, "no entres, que lo que voy a decir es muy simple; vas a perder el tiempo". Por supuesto, yo sabía que no era cierto; nunca perdías el tiempo junto a él, y te devolvía afecto porque sí. Un saludo cordial.

  • Comentario por Urkia 30.06.08 | 09:44

    Mi respeto y admiración al profesor y sacerdote Mardones y a su profunda y fecunda obra, aunque cuando lo tuve como profesor en Deusto su escoramiento político teñía en exceso su docencia (tanto en teología como en sociología) y no admitía réplica alguna... Claro que nadie es perfecto. Descanse en el Padre y sirva su legado para más y mejor investigación que ayude a la Iglesia en su construcción de un Reino de Justicia.

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