A que "Deus" hei-de rezar?

Permalink 26.11.10 @ 23:10:42. Archivado en amor, esperanza, ilusión, afectos, confianza, hijos, dolor

Conversamos muitas vezes. Conversas normais, como, por exemplo, o "ambiente" do Hospital. É homem atento, carinhoso, sempre disposto a ajudar. Tinha eu estacionado o meu carro no parque e dirigia-me para o Hospital. Entretanto tive de voltar ao carro porque me tinha esquecido de algo. Ele dirigia-se para o parque. Quase junto a ele. Disse-lhe: 'Fique descansado, que não estou a fugir de si'. 'Mas ainda bem que o encontro', respondeu-me. 'Então, que se passa?', retorqui eu. 'Olhe, diga-me a que "Deus" hei-de rezar. Sabe que a minha fé é muito pessoal'. 'Mas o que é que o preocupa? Passa-se alguma coisa de grave?'. 'À minha filha, com 30 anos, foi-lhe detectada leucemia. Estou assustado, preocupado, a sofrer horrivelmente. E quero rezar por ela. Mas não sei a que "Deus" hei-de rezar. A minha oração constante é só esta: Deus, misericórdia!. A que "Deus" hei-de dirigir a minha oração?' Pensei um pouco. Olhei-o nos olhos. Estavam vermelhos e as lágrimas afloravam. Só me veio esta resposta: 'Reze simplesmente. De certeza que o "Deus" que não sabe quem é, aceitará a sua oração. E eu também vou estar em união consigo a fazer a mesma oração'. Despedimo-nos com um abraço.

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Parte em paz

Permalink 29.06.10 @ 00:33:22. Archivado en amor, afectos, duelo, adiós

Eu era muito jovem, mais ou menos 27 anos. Já lá vão 30 anos."Tomei conta" das minhas primeiras duas paróquias. Gente simples e maravolhosa. A pouco e pouco os jovens foram começando a aparecer e a reunir-se. Na nossa simplicidade íamos fazendo alguma coisa. Nada de muito arrebatador. Mas feito com muito amor. Durante algum tempo tive alguém muito especial para mim, que me ajudou no trabalho. Já está na casa do Pai há bastantes anos. O Raul tinha um condão especial para estar com a malta mais "problemática". Desses tempos ficou uma amizade especial para com a malta nova. De amigos? De "pai para filhos"? Não sei. Só sei que ainda hoje dura. Há uns 4 anos, ia eu num centro comercial e ouvi alguém a chamar-me. Olho para trás e vejo que era um grupo duns 5 jovens que me chamava. Eu não os conhecia. Apresentaram-se. Malta dessas primeiras paróquias que tinham feito a catequese infantil comigo. "Já não nos conhece porque nós éramos miúdos e agora somos uns homens. Mas nós não nos esquecemos de si". Recordámos tempos antigos. Foi muito bom.
Hoje faleceu um dos jovens do grupo quase inicial das paróquias. Também marido duma jovem do mesmo grupo. Ao longo do seu internamento, porque não falava nem via, mas ouvia, só era capaz de me apertar a mão com toda a força que arranjava dentro dele. A cada nome que eu ia mencionando e lembrando, ele apertava ainda mais. Queria a minha mão junto da dele e as duas em cima do seu peito.
Porque é que me custou tanto este dia, meu Deus? Faz sofrer muito ver partir esta "malta". Não foi, de certeza, uma dor tão grande como a de um pai ver partir um filho. Mas que foi grande lá isso foi! E a dor de ver a João a sofrer pelo seu querido... ! Ainda dói!

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Um desabafo

Permalink 19.05.10 @ 23:40:52. Archivado en revuelta, capellanes, burn-out, dolor

Esta 2ª feira, no "Café com Fitas", ouvi dizer a uma psiquiatra, que os padres (e outros assistentes espirituais) que trabalham num Hospital, estão entre os Profissioanis da Saúde que mais probabilidade têm de entrar em burn-out. É que eles trabalham em "fase terminal". Depois do seu trabalho, nada mais há a fazer, não pertencem a uma equipa de prestadores de cuidados de saúde que se apoia e se defende. Como que estão fora e dentro ao mesmo tempo. Será assim? É claro que uma experiência de apenas 8 anos e tal, como é a minha, poderá não ter muito a dizer. Mas já é alguma coisa para poder ter uma opinião. Quando o sofrimento dos outros se torna o nosso sofrimento, quando não encontramos respostas para o sofrimento e as revoltas, para as dúvidas e perguntas, para o desânimo e a claudicação... como nos vamos sentir? Quando chovem pedidos de doentes, de profissionais, de familiares, de amigos... que resposta damos? Como incorpoaramos na nossa própria fragilidade as fragilidades dos que nos procuram? Como choramos com os que choram? Como damos valor a uma vida sem sentido e sem qualidade? Como encaramos a morte que pedimos que seja rápida? Como vivenciamos os nossos próprios problemas pessoais com os problemas dos outros que nos aparecem todos os dias? Hoje, passados estes mais de 8 anos, tenho uma convicção: se estamos num Hospital a exercer o ministério que nos foi confiado, é porque necessitamos de crescer. Crescer como seres humanos, reconhecendo a aceitando os nossos próprios limites, as nossas dores, angústias, dúvidas, interrogações e revoltas. É verdade que mais facilmente poderemos entrar em burn-out. A nossa missão é bastante diferente da dum médico ou dum enfermeiro. Quantas vezes a nossa oração não é nada "doce" e de "fazer cócegas no coração"!?!? É feita, sim, de muitas lágrimas e de maiores incertezas e dúvidas. Mas é sincera. É feita de carne, ossos, músculos... revolta... coração! Muitas vezes, até parecemos nós os doentes!
Desculpem o desabafo.

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Despedida

Permalink 03.05.10 @ 12:46:27. Archivado en esperanza, dolor, duelo, muerte, adiós

Quase uma vida inteira de sofrimento. São já 77 anos. Há tempos que lhe apareceu uma neoplasia. Agora, parte a bacia. Um neto com trinta e tal anos, bipolar agressivo, que criou desde os três anos. Enquanto não esteve estabilizado (e demorou muitos anos a estar), quase todos os dias lhe batia. Por fim, morre-lhe o marido há dias. Estava angustiada: "Não me despedi do meu marido!" O internamento no Hospital não lho permitiu. "Enquanto não me despedir do meu marido, não descanso. Tenho sempre aqui dentro de mim um nó que não se desata. Assim, não sou capaz de iniciar o luto". Um proposta: porque não escrever num papel um texto de despedida? Da maneira que o seu coração lhe ditar. Proposta aceite. No dia seguinte, levá-mo-la, na cama, à Eucaristia. No "momento dos defuntos", o nome do marido foi tornado presente. Ela não foi capaz de ler o papel que tinha escrito. Leu-o a filha que estava presente. Palavras encantadoras. Cheias de coração e emoção. Rasgámos o papel e queimá-mo-lo. O fumo que saía dele era como que a saudade que subia para o céu e a esperança-certeza de que se encontrariam um dia (talvez próximo). Uma vela acesa foi colcada no altar. A presença dum e doutro na Mesa da entrega total. No fim, de lágrimas nos olhos, dizia: "Estou em paz. Já posso iniciar o processo de luto". Um misto de felicidade e saudade. Perante todo o sofrimento desta mulher, eu digo-me a mim mesmo: sou um merdas! (desculpem, mas é isto mesmo que eu digo).

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Como um pai feliz

Permalink 17.02.10 @ 23:22:46. Archivado en humanización, médicos

Conheço-o desde pequenito. Tem mais um irmão. Depois de alguns anos sem o ter visto (quer pelo meu trabalho em outras terras, quer pelos seus estudos), vim encontrá-lo no Hospital. É médico. Algumas vezes temos conversado.
Ontem, fui encontrá-lo no átrio dos elevadores dum determinado piso. Estávamos a conversar, quando duas das suas doentes, internadas, o vêem e o chamam. Pedidos e mais pedidos, queixas e mais queixas... "Não me sinto bem... desejava comer outras comidas: só pastosa, só pastosa... não me dou com os medicamentos que me está a dar: quero os que sempre tomei; com esses é que me dou bem... ".
Foi maravilhoso ver a paciência e o carinho com que ele as atendeu. A maneira como as respeitava, como as escutava. Fiquei feliz por ver a maneira como o "miudito" que conheci há uns bons pares de anos estava a cumprir tão bem a sua missão de médico. Confesso que me senti como que um"pai" ao ver o filho a singrar na vida. E bem. Por fim, dei-lhe os parabéns com um abraço cheio de carinho.

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Associação Promundo

Permalink 07.02.10 @ 23:17:00. Archivado en solidaridad, sueños

Nesta tarde cinzentona, recordei-me dum convite que tinha recebido há dias: um concerto, em Coimbra, com o meu amigo P. João Paulo Vaz, a favor da Associação Promundo. Por 5 euros de entrada, iríamos ajudar a construir uma escola no Ghana. Lá fui. Igreja de N. Sra da Conceição, junto ao convento de S. Francisco, a abarrotar de gente. Muita malta nova. Entusiasmo, alegria, participação. O João Paulo tem o condão de entusiasmar as multidões. Com canções bonitas, com mensagens breves mas incisivas. E com boa voz. E bom acompanhamento.
Quase no final, veio Miguel falar da Promundo: "Somos um grupo de jovens que tem uma vontade indomável de mudar o mundo... e até já começámos a fazê-lo!" Têm actividades na Guiné-Bissau e no Ghana. Também em Coimbra. São jovens das Escolas Secundárias e da Universidade de Coimbra.
Fez-me bem ver a "vontade indomável" desta malta nova. Vieram-me à memória as actividades dos jovens nos anos 60 e princípio dos 70 em Coimbra. O que aqueles jovens de antigamente fizeram do Bairro da Pedrulha!
Parabéns aos jovens de hoje. E parabéns ao João Paulo Vaz.

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O meu Natal

Permalink 02.01.10 @ 22:37:28. Archivado en amor, afectos, muerte, adiós, navidad, hijos

Às 21:30, terminada para mim a Consoada, com uma parte da minha família, fui de novo até ao Hospital: gosto de passar uma parte da noite na Capela. Entro. Uma única pessoa. Um jovem duns 20 e tal anos. Dirijo-me ao gabinete. Ouço bater à porta. Era o jovem que antes tinha visto. "Padre, pode atender-me de confissão?". "Claro que sim. Podes entrar". Conversámos muito: ele tinha a mãe, de 47 anos, em fase terminal, numa das enfermarias. Às 23:30 terminámos a nossa conversa. Vim para casa: necessitava de descansar. Deitei-me às 0:30. Eram 02:15 quando ouço o telemóvel a tocar. "Sou o Enfermeiro-coordenador. Necessitamos de si. Uma senhora está a morrer e a família pede a sua presença". Levantei-me, vesti-me. Cheguei às 03:00 ao hospital. A equipa de enfermagem já estava à minha espera. Rezámos. Ungi com os santos Óleos a doente. Era a mãe do jovem que me tinha procurado. Tinha 3 filhos: um de 25 anos, outro de 23 e outro de 16. Vim descansar mais um pouco. Quando, pelas 10:45 da manhã, e eu a ensaiar os cânticos para a Celebração, eles entram na Capela. Não aguentei. Comecei a chorar quando os vi. Expliquei ás pessoas presentes o que se estava a passar. Foi maravilhoso ver quanto carinho e afecto as pessoas dedicaram aos jovens. Ao longo do dia ouvi, em separado, os dois mais novos e o pai.
Quanta coragem! Quanta fé! Eles sabiam que tinham uma mãe e uma esposa maravilhosa. Quando, na noite de 25 me despedi deles, junto a outras pessoas amigas, souberam dizer do que lhes ia na alma. Despedi-me. Mas voltei atrás: queria encontrar os jovens junto ao pai. Só fui capaz de lhes dizer: "Não se esqueçam de que também têm um pai maravilhoso!" A senhora faleceu no dia 26 pela manhã.
Foi um dia cheio de emoções. Tantas, que não sou capaz de contar.
Foi mesmo Natal.

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