Hospital de Dia
14.08.08 @ 09:48:37. Archivado en salud, solidaridad, dignidad
De vez em quando reservo uma manhã para ir ao Hospital de Dia. Duas salas: uma mais dedicada a Hematologia e Ginecologia; outra, para Gastroenterologia, Pneumologia... Claro que estou a falar de salas onde se administra quimioterapia. Cada sala tem capacidade para umas 30 camas. Duas enfermeiras em cada sala para cuidarem de todos estes doentes.
O doentes que vão pela primeira vez, necessitam de cuidados especiais: o seu nervosismo e ansiedade exigiam uma maior atenção por parte dos profissionais. Mas haverá tempo para isso, no meio de tantos(as) a tratar?
É sempre 'bom' ir lá. Quase todos os doentes estão acompanhados por algum familiar. É possível conversa 'amena'. Há possibilidade de grande abertura. Parece que o carinho e o afecto envolvem todo aquele ambiente. E não é neste pequeno 'post' que serei capaz de descrever tudo o que lá se passa. Muitas das pessoas já as encontrei em internamentos anteriores, no Hospital.
Cada doente é único, diferente. Gente de perto do Hospital e de longe. Uns estão em casa de familiares que vivem perto; outros vieram de ambulância, de táxi, ou em carro próprio conduzido por um familiar.
É-lhes servida uma pequena e ligeira refeição.
A manhã de hoje, passei-a lá.
Primeira pessoa com quem conversei: um pequeno bloco de apontamentos na mão, olhos fechados. 'Acordei-a' dos seus pensamentos. "Faz hoje uma semana que o meu marido foi a enterrar. Estou a tentar escrever uma pequena oração para ler, logo, na Missa que vamos celebrar." E falou-me do marido e do amor que os une. Da força que tem de dar aos filhos. Da amizade que está a sentir da parte dos amigos. "Mas é duro, sr. Padre. E logo nesta altura em que me encontro nesta situação!".
Duas pessoas à frente: uma senhora esfrega o seu braço direito. "Estou cheia de frio: não sei se é do ar condicionado, se é dos nervos que tenho". Claro que era dos nervos. Fui buscar um pequeno cobertor. "Estou melhor assim".
Sessenta e um anos, já reformado, e que "Fazia todos os anos um chek-up; tudo estava a correr bem. Mas, dum momento para o outro, começaram as hemorragias. O cólon já não stava bem. Tive, logo a seguir, de ser intervencionado ao fígado. Aqui estou, mas cheio de esperança.". Falamos de muita coisa. Quer saber também algo de mim e como vou tentando ser padre. Conto-lhe o que sou capaz.
Mais à frente, uma outra senhora com um olhar esquisito. Acabava de se deitar na cadeira. "Sabe? É a primeira vez que aqui venho. Sinto-me tão incomodada... Preocupo-me com tudo o que pode acontecer a partir de agora. Contam-me tanta coisa que estou cheia de medo".
Cumprimento uma outra pessoa: um homem para os seus 60 e tal anos. Barba de 'três dias', bem cuidada. Conta toda a história da sua vida. Os lugares onde trabalhou; e foram muitos e bem distantes. "Olhe, sou médico. Chegou a minha vez. E posso garantir-lhe que é bem diferente estar deste lado de cá!"
Uma jovem, conhecida de há bastante tempo. Com uns pais e um marido fenomenais. "Nunca pensei estar de novo aqui...". Pede para que lhe vá buscar a Comunhão.
Tantos casos, tantos! E de uma riqueza indescritível. Sinto-me mesmo Padre, no meio de toda esta gente!
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José António
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