A noite anterior a uma intervenção cirúrgica
27.03.08 @ 23:34:42. Archivado en inseguridad
Eram 22:30. Tinha terminado o trabalho; arrumei o gabinete, conversei com o porteiro de serviço, conversei com o Enfermeiro Coordenador... E saí.
Cá fora, no exterior da portaria, encontrei várias pessoas (era hora de mudança de turno). Mas houve uma pessoa que me chamou a atenção.
Um homem dos seus 50 e tal anos. Vestia pijama e roupão. Portanto, estava internado. Tinha vindo passar um bocado de tempo à rua. Sentado num banco, cigarro nas mãos, notei-o bastante pensativo.
E lancei uma pergunta:
"Custa a passar a noite?"
"Sim. Amanhã vou ser submetido a uma intervenção cirúrgica. Já fui submetido a cinco grandes intervenções e a sete pequenas. E ainda aqui estou! Estou com coragem: se tem que se fazer, que se faça. Mas esta está a mexer comigo. Não pela intervenção em si, mas pelas consequências que ela pode vir a ter: tanto posso ficar com um saquinho para as fezes, como posso ficar sem ejaculação de esperma. São meras hipóteses; mas também tudo pode ficar bem. Estou para tudo. É claro que se alguma das hipóteses se verificar, ficarei com menos qualidade de vida. Mas o importante é continuar a viver..."
Ouvi. Era a minha missão ouvir, naquele momento. E mostrar que ele não estava sozinho na noite. Noite de facto pela hora avançada e 'noite' por causa duma certa ansiedade.
"Por isso resolvi vir passar aqui uns momentos para 'arejar'. Está a saber-me bem."
Desejei-lhe "boa hora para a intervenção".
"Obrigado por ter mostrado interesse por mim. Obrigado por estes momentos que aqui passámos".
Ainda tenho na minha retina aquela "barba de três dias" quase toda branca, mas bem aparada e delineada. "Quero parecer bem para depois da intervenção", disse ele.
Que ele tenha "boa hora" de verdade. E que nenhuma das hipóteses se verifique.
Nem lhe disse quem era. Não era preciso. Naquele momento, ele só precisava de ter alguém, mesmo 'anónimo', que o ajudasse a passar uns momentos da noite. Foi isso que tentei fazer. Daqui a três dias o irei visitar.
... Fui visitá-lo... Afinal, ele tinha descoberto quem eu era: "pela sua maneira de ser, pelo modo como falou comigo, pelo tom e pelas palavras que me dirigiu ao despedir-se...!"
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José António
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