Maria Clara Lucchetti Bingemer

Mulher: esse corpo aberto e perfurado

19.04.17 | 04:59. Archivado en Acerca del autor

A emergencia da mulher na sociedade e na Igreja obriga a nós, artesãs da palavra, a
voltar-nos sobre nossa condição e gênero. Uma reflexão sobre a mulher, sobre o ser
mulher, no singular e no coletivo, se impõe a cada ano por ocasião deste dia. Pois a
mulher não é um tema de moda que emerge, cresce e depois passa. É questão de
cada dia, de todo dia, sempre arcaico, sempre novo, pois assim é a condição humana
com a diferenciação já nela plantada pelo próprio Criador: Criou Deus o homem à sua
imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. (Gen 1,27)

Desde o início, o autor bíblico chama a atenção para a maravilha diferenciada
da Criação, feita da mesma corporeidade tirada da terra (Adão, adama: tirado da
terra), mas apresentando uma versão diferente: Eva – a mãe dos viventes, a que traz
em sua corporeidade a potência de gerar o outro.

No judeu-cristianismo e na linguagem bíblica, embora a denominação mais
corrente do Antigo Testamento para a mulher seja a palavra “ ischa”, existe o termo
“nekeva”, que é aplicado a todas as femeas em todas as categorias de seres vivos e
que significa “a aberta”, “a perfurada”
.

Com precaução, pode-se usar o termo nüqëbâ (nekeva) para referir-se às
mulheres, consciente, no entanto, de que o termo oficial no singular é ´iššâ (ischa). A
grande diferença é que o primeiro - nüqëbâ (nekeva) - se utiliza mais para referir-se a
animais, ou seja, “macho e fêmea”. No Pentateuco especialmente, a tradição
sacerdotal prefere este termo para enfatizar o aspecto da reprodução na diferenciação
de gêneros. Os dicionários bíblicos em geral identificam nekeva na explicitação do que
seria a fêmea, no sentido de aberta, perfurada, à diferença do macho, cujo falo
prolonga a corporeidade ao mesmo tempo fechada e ativa que é a sua.

Em resumo, na Bíblia, nekeva é a fêmea tanto dos humanos como dos
animais.
A mulher, portanto, segundo a concepção bíblica, é um “ buraco” (e este seria
o sentido mais profundo da palavra hebraica “mulher” (fêmea) em hebraico.

Este vazio, este buraco da corporeidade feminina remete a sua porosidade, a
sua potencialidade metamórfica, a sua abertura receptiva para a alteridade.
Muitos
autores e autoras modernos identificam nessa abertura, nesse vazio, oco disponível e
pronto a ser habitado e preenchido, o lugar da Transcendência na criação finita capaz
do infinito pela graça. Seguem daí uma concepção da mulher que valoriza a
maternidade, pela significação que a esta dão as religiões em geral e o cristianismo
em particular.

As construções imaginárias de muitas religiões antigas veem o mundo como
um macrocosmo do corpo feminino, com seus ciclos e suas fertilidades intercaladas de
esterilidades. Assim também o Cristianismo, com toda a importância que dá a Maria,
Virgem e Mãe, elabora um discurso ainda não superado sobre essa abertura e
“perfuração” do corpo feminino, do qual sai e brota a salvação da humanidade.
A
religião reconhece o poder único e inimitável do paradigma materno. E reconhecendoo,
o perpetua, trazendo assim equilíbrio ao humano.

A grande pensadora francesa Julia Kristeva, ateia fascinada pelo religioso e
pela mística, afirma que colocar, como o faz nossa época, todos os refletores sobre o
biológico e o social, a liberdade sexual e a paridade de competências e salários, torna
a nossa civilização a primeira que carece de um discurso sobre a complexidade da
vocação materna.
E confessa ser seu sonho poder ajudar as mães a reencontrar a
paixão da gravidez, da reprodução. Em seu trabalho de psicanalista percorre um
caminho que vai nessa direção.

Ao comentar a pintura de flores exuberantes e ossos lisos da artista
estadunidense Georgia O´Keeffe, comenta Kristeva que “as mulheres tiveram desde
sempre uma percepção íntima, germinal e cíclica da beleza renascente de tudo que é
vivo, porque elas a levam em seu ventre fecundo."

A corporeidade feminina, portanto, acompanha a configuração das flores em
sua fertilidade, em sua vitalidade, em sua explosão de vida e de alteridade. E dá
testemunho de que os ossos secos da visão do profeta Ezequiel, no capítulo 37 do
livro do mesmo nome, podem não só reviver como transformar-se em flores pujantes
de beleza e vigor.

A abertura, a perfuração do corpo da mulher, longe de ser cicatriz que fecha
e esteriliza, é caminho para que a vida aconteça.
E isso não constitui uma diminuição
que contrai e atrofia, mas sim potencialidade que dilata e empodera.
Minha reflexão neste Dia da mulher é que fizemos um percurso no encalço
da libertação de nosso corpo. Não queremos mais ser escravas sexuais, ou
empregadas de luxo, meros receptáculos de machos desrespeitosos e violentos. Me
parece que está na hora de realizarmos, com força e doçura, a redenção do que de
mais belo nos foi dado.

Trata-se de algo muito além do biológico puro e simples. Algo sagrado e
sublime: a inscrição em nossa carne da geração da vida. Mesmo as mulheres que
nunca geraram ou pariram um rebento carregam em seus corpos essa “perfuração”
que vai dar nas fontes arcanas do mistério da existência. Neste dia, celebremos esse
oco, esse “buraco” que há em nós, que palpita e lateja ao ritmo do desejo do Criador e
do qual pode jorrar vida em abundância para muitos.


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